quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A força do querer

 Desde que nascemos somos formatados para o querer, desde querer alimento, a querer brincar até querer a atenção que desejamos. Mais tarde durante a adolescência queremos a afirmação no meio social, queremos ser a pessoal cool da escola, namorar a rapariga mais bonita, mais simpática e com o sorriso mais bonito. Não fui diferente dos restantes mortais. A primeira lembrança de tenho de querer algo leva-me a um filme que via vezes e vezes sem conta na minha infância, Above the law, que conta a história de Nico, um polícia de Chicago que enfrenta uma longa jornada contra o tráfico de drogas na sua comunidade. Muito resumidamente era um polícia honesto, numa encruzilhada mortífera contra os seus colegas corruptos e traficantes de droga, que cometeram o erro de ameaçar a sua família. Nico era um homem bom, integro, com uma ligação muito forte à sua família, tinha uma mulher linda, que o amava incondicionalmente (curioso como podem existir amores bonitos em tempos de cólera). A primeira quis ser foi ser como o Nico, acho que ainda hoje quando me olho ao espelho vejo algo do Nico em mim. A sua integridade, honestidade e coragem são algo que me orgulho de ter como pilares dos meus valores.

Voltando à juventude, essa idade terrível, cheia de mudanças, desilusões, alegrias, sonhos e de começar a aceitar que temos que querer algo, de preferência algo que gostemos mesmo de fazer, pois caso contrário desistimos, fracassamos e tornamo-nos infelizes. Estou incluído quer na primeira, quer na terceira opção, fui forçado a escolher algo que me parecia ser útil para mim na altura, mesmo sabendo que era algo que não gostava ou na realidade que não me preenchia. Tornei-me infeliz a partir desse momento, numa espiral negativa e por vezes destrutiva. Nunca fracassei em nada do que fiz na minha vida, quer tenha gostado, quer não tenha gostado de o fazer, fosse mais ou menos importante tenho plena consciência que o fiz com todo querer de ser melhor, com todo o brio que me orgulho de ter. 

Nos últimos anos travei a maior das minhas lutas, aquela que me esgotou por dentro, que sem tocar no meu corpo, me atirou ao chão mais de mil vezes e que com a raça que sempre tive, levantei-me sempre mais uma vez do que caí. Mas era uma luta que eu queria travar, podia ter fugido dela, mas era uma luta que eu já queria e já estava preparado para travar mesmo antes de o saber. Tal como na história do Nico, houve um imbecil que achou que podia fazer mal àqueles de quem gosto, infelizmente para mim esse imbecil tem um laço sanguíneo para comigo que não dá para mudar. Foi uma luta que venci, porque quis vencer, quis vencer mais do alguma coisa que tenha desejado até então, e um grande peso saiu de cima de mim embora exista uma possibilidade de um pequeno regresso a essa luta, pois num dos lados sinto que ainda se contam espingardas.

Durante muito tempo estive afastado de querer algo de importante, continuei a querer muitas coisas, algumas boas, outras nem por isso, mas coisas realmente importantes e que me enriquecessem enquanto pessoa foram muito poucas. Decidi mudar, não por achar que devia dar importância ao preconceito familiar e do círculo mais próximo de acharem que estava sem rumo. Talvez até estivesse sem rumo, não ponho essa parte de lado, mas a realidade é que quis mudar por mim, porque sei que quero mais, porque sei que sou melhor do que isto, consigo ser melhor do que isto, por mim, sempre por mim e nunca por mais ninguém a não ser eu. Há todo um quase cliché que é usado para essas situações "não há ninguém igual a mim" e não há de facto, sei de quase todo o meu potêncial, principalmente o humano. Foi um desafio muito grande voltar aos estudos depois de tanto tempo sem desinteresse pela vida académica. Caminhei só nesta aventura, sem o apoio da maior parte dos mais próximos, a quem a mudança lhes causa aflição. Foi duro, não nego, mas soube-me bem, voltar a acreditar e a saber que consigo ser melhor em todos os campos. Não vivo iludido com isso, pois sei que esta maratona ainda não acabou, a mudança é sempre uma constante, não há como fugir, mas em relação a esta maratona ainda há muito por correr e eu vou corrê-la, com toda a vontade que tenho de ser melhor e nunca olhar para trás, sempre em frente. 

Há uns dias atrás fui apanhado desprevenido, de guarda completamente baixa por um grande amigo meu que ao olhar para o meu ar amoriscado e enfeitiçado por ti me perguntou:

-Quanto é que estás apaixonado por ela?

Até esse momento, nunca ninguém me tinha perguntado isso, já todos repararam, mas essa pergunta sempre foi feita dentro dos meus pensamentos.

-Muito,  muito mais do que aquilo que imaginava algum dia poder estar, ao ponto de ir com toda a força contra uma parede. - Respondi-lhe de forma imediata e segura, com a certeza de quem sabe o que sente e o que diz.

- Teres a certeza do que sentes é o primeiro passo para saberes o que queres, numa escala de zero a dez, quanto é que a queres? - perguntou-me ele de forma amistosa, de quem reconhece que no brilho dos meus olhos há toda uma preocupação e um medo.

- Mil vezes o infinito. - Respondi-lhe de forma um pouco honesta, pois sei que dentro de mim quero-te muito mais do que isso. 

Este pequeno diálogo paira na minha cabeça desde então, por tudo o que pode acontecer, mas por uma coisa que acho que tem uma ligação especial com o querer algo ou neste caso alguém, o medo de perder essa pessoa, não de uma forma em que se ache que se possuí, porque não é isso que sinto em relação a ti, nem quero. Nós não gostamos de perder as pessoas que são importantes para nós, e os palermas que não se iludam, as relações são o mais importante que a vida nos dá, são a fonte das nossas alegrias e das nossas melhores memórias, quando tivermos noventa anos e olharmos para trás na nossa vida, o que vamos desejar? Ter tido um melhor carro? Uma melhor casa? Um melhor emprego? Ter dormido mais? Não! Vai ser de certeza eu gostaria de ter dedicado mais tempo às pessoas que sempre quis, que sempre amei.

Quero-te todos os dias um bocadinho mais, mas tu não me queres, o mais provável é que nunca me venhas a querer e por isso não é justo para ti eu continuar com este assunto, fica para outra vida.


Ps: Não és um escape das minhas frustrações, um amparo egoísta para as coisas que correm mal, sempre fui eu contra o mundo. Não quero que sintas essa responsabilidade.     


     

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Aquela dança de quem não sabe dançar


A valsa surgiu no começo do século XIX, foi durante muito tempo considerada uma dança imoral, reprovada pelas classes sociais mais altas, sendo até proibida em alguns países europeus. Foi inspirada numa dança em que os pares dançavam separados para mais tarde se tornar num dos símbolos máximos dos pares enamorados, dançando juntos, mostrando ao mundo a ligação que existe entre a dança e o amor. Não há nada mais belo que duas pessoas que se amam a dançar, cruzam as mãos e os olhares apaixonados, agarram-se pela cintura em sinal de respeito mútuo e brilham. O mundo pára nesse momento, transportando esses dois pontos de luz erradiante para outra dimensão, para o seu mundo, o mundo daqueles que se amam, que se acarinham, que se protegem, que se respeitam e que se for preciso movem os mais bravos mares para que nada os separe. 

E aqueles que não sabem dançar? Esses terão que se soltar, os pés, as mãos e o resto do corpo. Até que toquem no seu par, pois tanto na dança como no amor, as coisas não surgem com uma ordem lógica, simplesmente quando se quer e se aceita, acontecem como por magia. 

Acredito que dançar sozinho possa dar uma sensação de liberdade, de evitar os erros dos outros, os desajeitos e por vezes a falta de talento. Talvez até possa dar uma sensação de controlo sobre a "dança", mas não há muita coisa nesse mundo que estejamos aptos para controlar e a "dança" não é diferente. Talvez chegues ao final da dança e te sintas espectacular pois achas que brilhaste sozinha, por ti, sem ninguém. Eu digo-te que não, e vou dizê-lo sempre. A dança é muito mais bonita quando partilhada, como tudo o que é de bom neste mundo, como a partilha de uma sensação, um sorriso, um olhar ou um beijo apaixonado. 

Eu não sei dançar, nunca soube e talvez nunca vá saber. Quem sabe se um dia não me ensinarás a dançar a tua exigente dança, a mais bonita de todas, a nossa.

domingo, 9 de agosto de 2020

Olhares

 

  Significado de olhar

Fitar os olhos em; ficar cara a cara com alguém; mirar-se: olhar o pôr do sol; olhava para a paisagem; olharam-se com admiração.
Há algo no teu olhar, infinito e profundamente penetrante em mim, que me consome como uma chama que arde numa folha de papel. Arde com a suavidade da natureza, pois a natureza no seu estado natural é suave, libertante, reconfortante como os quase infinitos pores do sol que já partilhámos. Nesta aventura de sentidos que é a nossa troca de olhares petrifico, como se do meu corpo controlasses, como se sofresse uma hipnose permanente da qual não quero sair. Que misto de sensações causam estas coisas comuns a todos os seres, mas que tu, com esse brilho nos olhos lhe dás um significado tão bonito, tão pacífico e ao mesmo tempo inebriante. Sentado naquela pedra, debaixo daquela árvore que por tantas vezes passei sem a notar, tive a primeira oportunidade de te contemplar, mal sabia eu o que me viria atropelar, desarmar-me desta bolha que me rodeava. Um nó na garganta, daquelas que impedem de respirar mas em simultanêo te alimentam com aquele teu encanto e subtileza.O teu olhar lembra-me o verão, que por mais uma ironia do destino foi quando nos conhemos. Um verão quente, feliz que transborda harmonia. Que esse verão do teu olhar nunca acabe, que esse teu brilho, que ilumina mais do que aquela lua que vimos juntos nunca se apague.Os teus olhos verdes com tons de avelã e mel são os mais encantadores, formosos e harmoniosos que alguma vez tive o prazer de cruzar.

Encontros

 Subtileza diria eu, 

subtileza descreveria eu. 

Sim, a tua pele na minha pele.


Entretanto não a sinto,

mas lembro me dela 

do que provoca em mim,

do seu sabor e perfume.


Quando suada,

transpirada, 

quente e molhada,

escorrega e desliza.


Delicadeza senti eu,

delicadeza experienciei eu.

Sim, a tua pele na minha pele.

 

Num suspiro profundo,

a levitar.

Contraditório...

Como algo intenso 

pode flutuar.


E continuo...

A sentir a tua pele...

Na minha pele.


Por: Pipoca

Para já

É para lá do tudo a viver

que ainda por ser encontrado 

já foi tudo sem saber!


Respirar te, ouvir te, saborear te, olhar te, sentir te...


É para lá do tudo a viver 

que assim foi experimentado 

e, no passado fiquei a conhecer.


Para lá de tudo 

não importa se será futuro, 

se é presente,

ou se foi findado.


É para além do que é visível,

é para além do que é palpável,

do tangível ou perceptível.


Engraçado,

que é assim que é para lá ou além:

olhos nos olhos

mãos com mãos

boca com boca

pés com pés 

corpo com corpo.


Por: Pipoca

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

La vie en rose

[Aviso: esta história seria muito melhor se fosse escrita por alguém com mais talento que eu, seria muito melhor se fosse escrita por ti, e te soltasse esse teu sorriso. Ainda asssim foi vivida por mim, por isso, sempre que uma sensação vos parecer curta multipliquem por mil, hão de chegar (quase) lá perto.]

Num banho de água quente em que os nossos corpos fervem de sensualidade, as nossas hormonas já ebuliram faz muito tempo e os doces toques debaixo de água são não só inevitáveis, são quase magnéticos. A ternurenta e desejosa troca de olhares já adivinha o que daí vem. Tremo por dentro sem dares conta, como se fosse a primeira vez, mas não o é, provavelmente já estaremos mais próximos da última vez do que da primeira e essa sensação de aperto desola-me, transtorna-me enfraquece-me. O porquê(?) não pode ser dito aqui, porque nós não falamos dessas coisas, (e eu teria tanta coisa bonita para te dizer e para te mostrar)uma questão de timmings. 
Voltando ao que interessa, dentro de toda esta multiplicação infinita de sensações que me provocas, o teu olhar, o teu pacífico e confiante olhar que parece uma paisagem pintada digna da mais bela obra de arte, provocante que entra por mim a dentro, que me mergulha dentro dele tão fundo que não quero nunca de lá sair, algo tão maravilhoso que provavelmente esta será uma das partes em que para perceber isto tinham que estar dentro de mim. Mas tu, pelo menos tu, espero que o entendas, que o sintas, talvez não da forma sentimental, mas pelo menos da parte sensorial. 
A cumplicidade que advém desta troca constante de sorrisos e olhares (mais tarde quase semicerrados) leva-nos à êxtase, o prazer vivíssimo, gozo íntimo, causado por uma grande admiração, por um enlevo, por sensações adversas que me levam a estar emocionalmente fora de mim, intensamente e contundente de prazer. Há todo um choque quando os nossos lábios se tocam, como se de um guia para um caminho cor-de-rosa se tratasse, o que é isto? Como é que alguém me pode fazer sentir assim? Como é que os nossos lábios se tocam e não existe um caminho inverso? Que tipo de droga és tu? Como é que me causas estes suspiros contantes?
Navegando em ti, entre carícias, entre toques mais apimentados, na vontade de não parar de provar o teu sabor, de te provar vezes e vezes sem conta, existe todo um contexto que só eu e tu conhecemos só eu e tu vimos, só eu e tu vivemos, isso nunca ninguém me há de tirar, nem mesmo tu. Os barulhos que fazemos, os gemidos de prazer e de vontade de querer mais, a vontade incansável de nos possuirmos, que nos transporta dali, daquela mágica banheira a ferver de emoções, até à lua. Nada mais interessa, o mundo pára, e nada mais existe além do meu corpo no teu e o teu corpo no meu. Vou sempre querer-te um pouco mais do que no dia anterior (sorry, definitely not sorry). 
São noites em que nem nos melhores filmes é possivel imaginar não é? Sem dúvida que nunca vi nada assim nem nunca vou ver, quem sabe um dia o conte a alguém, que consiga criar magia através de uma lente de uma câmera de filmar, e que o possa ver vezes e vezes sem conta para poder matar as saudades que já tenho de ti. 
La vie en rose malheureusement ce ne sera pas pour toujours. 


Ps: Observar-te deitada  naquela banheira foi das sensações mais agradáveis que os meus olhos já viram.

Ps2: Talvez um dia te explique o sufoco que leva aos amuos e as coisas parvas que às vezes te digo. 

Notas de desculpa

Querido blog, 

Tu que me acompanhaste durante tanto tempo e em momentos de aflição provavelmente não merecias esta ausência de tantos anos. Mas com uma coincidência te criei e com mais uma (bela) coincidência voltei para te escrever.