domingo, 13 de maio de 2012

O valor de uma amizade



Este texto conta a história de dois amigos e como verdadeiros amigos que são não se trata de uma história de amor. Poderia até ser, a homossexualidade tanto como outro assunto qualquer nunca foi tabu para nenhum deles.
 Relembro a história destes amigos, não improváveis, porque a amizade nunca é improvável de acontecer, apenas nasce e permanece para sempre.
Conheceram-se no sitio mais estranho de sempre, numa entrevista de emprego. Vindos de lados opostos de Lisboa, com idades diferentes (diferença essa nunca notada) e de classes sociais completamente opostas. Bernardo que era o mais novo estava nervoso como nunca tinha estado na vida, afinal era a sua primeira entrevista de emprego. Manuel estava atrasado mas era o entrevistador e podia fazer  aquilo que bem queria, ninguém lhe podia dizer nada, era óptimo no que fazia. O relógio marcava exactamente 09:13 quando Manuel chegou ao edifício, treze minutos que pareceram uma eternidade. Trazia consigo um sorriso enorme e feliz, como sempre claro, foram poucas as vezes que entre eles transmitiram as tristezas da vida. Quando viu Bernardo pela primeira vez, reconheceu-lhe o rosto e achava que já o tinha visto em algum lado pois era lhe muito familiar aquela imagem, mas não, foi só pura coincidência.
Eram doze ou treze candidatos se a memória não me falha, não era propriamente uma prova a eliminar mas ninguém queria ficar mal visto, e o jovem com o seu sangue novo deu o seu melhor e foi contratado.
-Parabéns Bernardo, bem vindo a empresa. Esperamos que tenhas muito sucesso e que te dês muito bem por aqui. - Disse o mais velho.
O jovem rapaz ainda meio surpreendido por aquela pequena vitória, ficou bem mais aliviado com este elogio que foi para casa como se tivesse ganho o mundo.
Passaram-se cerca de dois meses desde que se conheceram e sem dúvida que já eram grandes amigos e por isso por vezes almoçavam juntos, conversavam em períodos de pausa e até ao final do dia antes de cada um seguir o seu caminho ainda fumavam o seu cigarro e trocavam dois dedos de conversa. Tinham gostos parecidos, discutiam cinema, politica e até economia. Esta amizade como tudo o que é bom na vida  trouxe as suas pequenas invejas mas nunca foi nada que afecta-se qualquer um deles, muito pelo contrário, eles gozavam com isso. Se fosse preciso era mais um motivo para eles falarem mais, até que todos se fossem embora. Houve alturas intrigantes em que corriam rumores sobre a homossexualidade de Manuel, mas esse assunto nunca lhes importou, até poderia ser verdade, mas Bernardo nunca perdeu tempo a pensar sequer nisso, simplesmente eram amigos e fosse ou não verdade era um assunto que não lhe dizia respeito, nem a ele, nem aos intriguistas do costume.
Como boa empresa que se preze, existem dias muito complicados e muita confusão à mistura. Bernardo sofreu isso na pele, num dia muito complicado onde foi perdido muito dinheiro, parte dele, não me recordo se foi muita ou pouca, foi perdida graças a ele. Foi para casa de rastos, triste e furioso ao mesmo tempo, nem esperou para o cigarro de fim do dia e Manuel percebeu isso, deixou-o ir. Enviou-lhe uma mensagem por telemóvel que deixou o jovem petrificado em pleno eléctrico em hora de ponta, Bernardo ficou bastante surpreendido, alegre por saber que não era mais um de quinhentos funcionários, mas acima de tudo sentiu que ganhou um amigo para a vida. Ninguém que não fosse um verdadeiro amigo jamais faria aquilo, daquela forma e com tamanha genuinidade.
Passaram-se anos(!) ambos já não trabalhavam no mesmo sitio, foi complicado na altura a mudança de rotinas, mas foram os dois para um emprego melhor. A amizade acho que nunca se perdeu. Pelo menos Bernardo acredita que não, sabe que não. Só que nunca conseguiu ultrapassar aquela depressão, nunca conseguiu pedir ajuda, nunca conseguiu gritar ao amigo por ele. Evitou-o sem saber, ignorou-o sem o saber. Ainda hoje não sabe como voltar a falar com ele. Sente-se a pessoa mais inútil de sempre, ao deixar um amigo durante cinco meses, que cobarde. Se pude-se falar com Manuel diria-lhe certamente que ele é o amigo que todos nos procuramos, que está sempre quando precisamos, que nos diz as coisas mais fantásticas nas alturas mais complicadas da vida, mas que acima de tudo, gosta das pessoas por aquilo que elas são.
-Desculpa, eu sou uma merda. É tudo o que te tenho a dizer sobre a cobardia que tem sido a minha vida nestes últimos tempos. - Disse Bernardo ao Manuel passados cinco meses e dezasseis dias.




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